Ora, casamentos...
Um casamento é para mim uma coisa muito bela, muito bonita, uma cerimónia litúrgico-religiosa mas que considero profundamente torturante. Após uma profunda investigação à minha mente consegui descobrir o seguinte:
Um casamento começa muito antes da cerimónia em si dita, mesmo antes dos, portantos, noivos se conhecerem. O casamento começa quando os pais dos, portantos, noivos os fabricam. É assim, o pai deposita uma sementinha na mãe, e por aí fora, etc, coisa e tal, nasce um puto, vai para a escola, depois para a faculdade ou depois vai trabalhar, a certa altura apaixona-se, quer, portantos, fazer o amor sem dó nem piedade em posições nunca dantes inimagináveis, incluíndo a posição de tirar finos aos domingos à tarde atrás da barraca do Sr. Manel peixeiro. Mais tarde, por coincidência do destino, estas duas pessoas, antesposo e antesposa, decidem enveredar por essa maluqueira que é o matrimónio.
Assim sendo, aparece a primeira pergunta: "Onde é que vamos encomendar os leitões e as batatas fritas?", pois toda a gente sabe que é na tostadez da cabeça do leitão que se vê a felicidade futura dos agora ainda antesposo e antesposa, mas futuramente e mutuamente esposos. Aproveito a oportunidade para salientar a similaridade entre as palavras "esposos" e "despojos". Basta um pouco de sotaque de "Bxeu" e soará ao mesmo.
Voltando, a seguir vem todo um rôr (eis uma expressão que já há muito não utilizava) de questões, de entre as quais saliento, por parte do noivo "e as gajas para a despedida de solteiro, são boas?" "Haverá cerveja em quantidade suficiente?", e por parte da noiva "Será que os Diapasão aceitam fazer a música, ou será melhor o Quim Barreiros?", "Também devo pôr uma tampa branca no telemóvel?", e comentários de "Tenho de encher a igreja de flores!"
Chega o dia, o noivo de directa e de ressaca sem ter tomado banho, o padrinho a segurar-lhe as olheiras, a noiva que nunca mais bem, o Cristo que não pára de espirrar por causa das flores, o padre a ameaçar não fazer o casamento se a menina das alianças não parar de berrar que quer uma Barbie igual àquela com o véu azul e a auréola, entra a noiva finalmente, a organista engana-se e toca uma marcha fúnebre em vez da nupcial, pensando bem talvez não se engane e esteja correcta, o padre lê o salmo com menos convicção que se estivesse a relatar um jogo de futebol, o coro canta o "atirei o pau ao gato" em vez do "Adeste Fidelis", o padre pergunta se há alguém que queira impedir o casamento, o padrinho diz que sim e que quem devia casar com a noiva era ele, a noiva ri-se, o noivo dá-lhe um enxerto de porrada, o pai da noiva dá um enxerto de porrada ao noivo, envolve-se tudo à pancada até o Cristo mandar um berro "Parou, F***-se!", aí já são todos amigos por presenciarem o milagre, a noiva chora de comoção por ter havido um milagre no casamento dela, as beatas rezam, o padre paga ao gajo dos efeitos especiais por baixo da mesa, continua a cerimónia com um balanço de três moribundos (o padrinho, a imagem de S. João e um carneiro que ninguém os mandou meter-se ao barulho, a pancada era para os convidados), o noivo com um olho negro, a camisa rasgada e sem os dentes da frente, a menina das alianças que entretanto fugiu e já as está a vender no tasco ao fim da rua por três gomas, dois chupas e uma bola de Berlim (com creme), após hora e meia lá conseguem convencer o homem a devolver as alianças por 120 contos e duas garrafas de champanhe, o casamento pode prosseguir, os ditos do costume "fico contigo para sempre até que o divórcio nos separe, na saúde, para o melhor, na doença já nem tanto, espero que não seja contagiosa, etc. coisa e tal", e a antesposa a repetir, trocam alianças, a dela era demasiado pequena, a dele demasiado grande, olham para os nomes e vêem que foram enganadas pelo gajo do tasco do fim da rua que entretanto já bazou, Adstrínio e Belausina não são, portanto, os nomes do nosso mesmoquaseaseresposo e mesmoquaseaseresposa, à força de muito tentar lá conseguem infiar aquilo, dão o beijo, os convidados batem palmas e assobiam, o noivo manda um soco no gajo que disse "Ó boa!" por estar nitidamente a exagerar e logo 10 gajos a segurá-lo, trazem-no para fora, a malta a atirar arroz para aqueles 11 gajos, a noiva a gritar "então e eu?" ainda no altar, os gajos não curtem que o fotógrafo lhes tire fotografias com a cabeça cheia de arroz e dão-lhe porrada da velha, e para acalmar os ânimos a mãe da noiva decide mandar tudo para o copo de água.
Felizmente, no copo de água tudo está lindíssimo, a fonte a gorgogitar a mais pura da água do Luso, as cabeças de leitão tostadas tão lindas, futuro promissor garantido aos acabadinhosdeesposar, os arranjos de fruta de 4,59 m a rivalizar com o bolo que é uma torre de cerca de 956 profiterôles, os canapés todos com palito e as bebidas prontas a serem servidas, champanhe do mais fresco que existe, martini acabado de colher, Whisky mais velho que a própria Sé de Braga, e, para os convidados, Binho e Sumol de Ananás.
A banda começa a tocar mal chegam os primeiros convidados, "Apita o Comboio", seguido imediatamente do "Que Viva España", seguindo com as mais belas músicas de Ágata, Monica Sintra, Toy e Zézé Faria, o cantor da terra.
Vem a comida, absolutamente deliciosa mas que as madames vão sempre dizer que está horrível, "e ai, já viste como ela fica mal naquele vestido? - Que gorda!, e o branco está fora da moda, agora só se usa o "pérola"", deixemos estas entregues às tricotices, os amigos do noivo já bêbados a tentarem todos a fazer-se à jeitosa da amiga da noiva, ela irritada vai buscar fruta mas tira uma das laranjas de baixo e provoca o desabar de tão bela torre qual Babel agora destruída, acabou o comer, todos a arrotar e a mandar baforadas de um charuto cubano dali de Évora, os bolos cortam os esposos, a banda acaba e pede mais dinheiro para tocar mais, leva um arraial de porrada isso sim e toca e toca mesmo, e ao fim da noite o noivo manda toda a gente para casa e descobre que o carro já não tem pneus e está todo riscado e todo cagado de sujo e aí parou! O noivo chama a polícia e os amigos vão todos presos, o noivo leva a noiva para casa e adormece mesmo antes de qualquer coisa poder acontecer, a noiva lembra-se que se esqueceu de atirar o ramo, e no dia seguinte esperam 5 horas de atraso por um avião que nunca mais vem.
Espero não vos ter dissuadido a nada...
Se assim o foi, perdoem-me.
O casamento até tem coisas bonitas:
- as ligas da noiva,
- o presunto
- o momento em que todos os convidados gritam "Beija! Beija! Beija!"
- a "maquiage" da noiva toda borrada por chorar de felicidade
- a celebração da eucaristia
- e as ligas da noiva.